VIII



tudo é familiar
neste habitado de ruas arruinadas
e lâmpadas ociosas
onde já os pássaros não fazem ninho
nem os rios se encontram

caminhos onde pousa devagar a respiração
e a solidão grita debruçada
todas as tardes

do outro lado
o amor acolhe-se em palpitação
dentro do sangue puro dos olhos
que derruba os porquês




Maria Costa

VII





onde os ventos convergem vozes
as crianças correm para o mar
arrastando o corpo perturbado
no umbral do tempo

o que sobrou fecundo no ar
as dores da terra






Maria Costa

VI





as casas interrogam o silêncio
por dentro
a morada mais antiga



Maria Costa

V




e vamos entoando
o espaço das sílabas semeadas de lírios
em melodias suaves que se movem
intensas
soltas
no lugar onde os ulmos
fazem frondoso o vento
ao despontar do dia



Maria Costa

nesse lugar



éramos da mesma idade
desci laçando-te o braço
era silêncio e espaço
uma escada de céu e pássaros
uma escala que cantava
em cada oitava

agora o vazio por degraus

foi breve a nossa longa viagem
eterna

regresso durando humana




Maria Costa

IV




na frescura da manhã
acontece

a palavra renovada





Maria Costa


III




mais interior que um coração




rostos apagados das casas
que hão-de espalhar pétalas de rosas

no fim do mundo





Maria Costa

II




as estrelas alumbram
o chão dos teus ombros

o silêncio desce
des
ce

penumbra de um tempo
sem espaço – leve
muito leve



Maria Costa

I



solene e grande como o orvalho das manhãs
ou o velhíssimo sopro do mar

assim sonha

de poucas palavras um poeta
por certo

na face um pouco de todas as essências
o vago dos rostos
o interior dos dias

já de novo se erguem no seu íntimo
outras águas

espelhos de eternidade
que recolhem à própria face.



Maria Costa