XXVII


dá-me o vagar da tua mão
como se nunca partisses pela estrada
ou pelos outeiros da noite




Maria Costa

XXVI


abeiro-me agora dos rios ocultos
vestida de solidão para reconhecer a terra

busco no brilho das águas minha sede
pertenço a esse silêncio
onde a chuva deixou assomar flores,
neste território em que a solidão habita deuses

cresço luz de um sonho antepassado
alimentado na paz dos pássaros

queda de folhas lúcidas

essência das palavras
entre os dedos do fogo





Maria Costa

XXV


vi-me nascer, crescer, sem ruído
sem galhos que doam como braços
calada

sem palavra para ferir no ventre




Maria Costa

XXIV


não pertencer a ninguém
ser água na água
retornar com os círculos da pedra
que desce à íntima escuridão

sem voz, tornar-se círculo

amar
como devem amar os gerânios
as crianças e os cegos



Maria Costa

XXIII


existe uma solidão no espaço interior do inconsciente.


Maria Costa

XXII


há uma agitação sobre todas as coisas
penso na mulher que sai de casa ainda escuro
com a manhã escondida no avental
e vai pela beira dos campos acordar as águas

no orvalho das ervas escreve as marcas do seu passar

dentro do pensar revolvendo a manhã
– a libertação do fogo adormecido sob a terra -
a pedra abre-se no espaço,
como a mão quando se estende para cair
um lugar merecido para quem já caminhou muito
e só deseja ser abençoada antes de dormir




Maria Costa

o mundo parece irreconhecível...



talvez tenha vindo nesta viagem para te respirar no vazio das árvores. depois do temporal. foi na tempestade que cresci.
habituei os ouvidos à voz quando descia pelas escadas da noite.
há uma linha de névoa longínqua que parece recolher todas as linhas que existem à tua frente…
canta na catedral.






Maria Costa

tapeçaria de luz



“Tudo me impele para a Luz. Vivo esta inquietação terrível de não conseguir responder a ninguém, a nenhuma carta, a nenhuma coisa, dentro do tempo... tantos os sinais que me chegam durante a noite... “



partilhamos a dureza da Luz sobre os dias
descendo o poço que há em nós
saudei-te naquele que passava
em grandes estátuas de silêncio




“Era ainda pequena, regressava do mar, e tudo estava à mesma distância dos nomes”



o marulhar do oceano soltou o peso da respiração
e encontrou uma margem para descansar
como náufrago que deixa de acreditar
desliza na multidão de olhos fechados


“Antes, estava só.Hoje, ainda mais só, por imaginar Tudo.”



afasta as ramagens,
empresta-lhes todas as vidas que tiveres.
possam resgatar os regatos da Luz






Maria Costa


XXI


névoa de águas anteriores

lembrança de um mar
que não cabe na pupila de deus




Maria Costa